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UM BERÇO DE VALOR

1983. Chego na Curuzu, e em lá chegando sou recepcionado pelo Agripino Furtado, que igual “Juruca”, no Baenão, me mostra e ensina como tatear os corredores do “Vovô da Cidade”.
1990. Raul Aguilera, presidente bicolor, se desentende com Miguel Pinho, diretor de futebol, e, em carta, renúncia ao trono.
Lá um dia, Agripino me convida pra dá um bordejo pelas bandas do Jurunas para rever o ex-presidente alviceleste Raul Fermin Roberto Aguilera, o “Seu” Raul. Era uma loja de venda de ferragem.
Falando português com forte sotaque espanhol, “Seu” Raul, após servir café, fala-me do seu tempo de presidente bicolor, e deixa escapar um segredo: “Nunes é um ingrato!” (Cel. Nunes presidente da FPF).
Deixo o escritório usando um chapéu com marca da empresa e a certeza de que todo final de mês tinha em mãos o valor da minha cabeça “outdoor”.
Foi no 1º piso da sede social do Paysandu que conheci Raulzinho, filho, e quando ele dava sorte de jogar e ganhar no vermelho 33 da roleta, distribuía ficha pra todos os funcionários da casa: 10 cruzeiros. Eu ganhava 5 pra chamar bingo. Estava feita a Feira. Todos os da casa torciam pelo Raulzinho, porque ele ganhando dividia conosco. Ela já era o dono da DISPROFAG – Distribuidora de Produtos Farmacêuticos Aguilera.
Em pouco tempo, visto a marca nos campos de futebol.
Em 2000 surge a marca BIG BEN. Raulzinho me veste: chapéu, blusa e calça amarelos. Viajo o Brasil todo (Rádio Liberal), Copa do Mundo na Alemanha (2006); Copa do Mundo no Brasil (2014), e Olímpiada no Rio de Janeiro (2016)!
No final da década de 90 compro área de 6 por 12 em frente ao portão da fábrica da Antarctica, entrada do Conjunto Império Amazônica, e monto o REMADINHA. Um arremedo de bar, mas a galera marcava presença aos sábados pra prosear.
Era um puxadinho: um só WC. Cobertura “peneira” (quando chovia era arreda-arreda de mesas e cadeiras). A galera comparecia por causa do tira-gosto de “cuxito” frito e caldeirada de pirarucu e o ótimo papo.
O Remadinha estava falado. Carlos Magno, aos sábados, comparecia com o seu conjunto SÓ BEBE QUANADO TOCA e Mestre Curica, com seu banjo, faziam a alegria da galera. Bamburrei…
Num sábado, eis que pinta um carrão. Estaciona e de dentro do “importado” sai Raulzinho Aguilera e outros “baludos”.
Acomodo-os em duas mesas e sirvo uísque; dona Dolores (mãe da Mikaela) havia preparado uma pescada amarela ao forno pra fatiar e vender tira-gosto…
Ao saber que a “ispicialidade” estava no forno, Raulzinho disse: “Traga pra mesa!”
Eis o sufoco acompanhado de dose de vergonha: chove e às goteiras não dão sossego aos meus fregueses “baludos”. É coisa de Deus!
Vendo meu drama, Raulzinho me olha e indaga: “O que queres fazer aqui?” – respondi: “Seu eu tivesse dinheiro, faria restaurante, kitnete e terrace pra eu jogar fumacê no ar.
– Segunda-feira estará aqui um engenheiro, falou com fé. E eu acreditei. “O cavalo está selado”, pensei e acertei.
Ao se despedir, Raulzinho mete a mão no bolso e deixa sobre a mesa o triplo do valor da despesa.
Dito e feito: segunda-feira dona Dolores me telefona dizendo que tinha uma empresa construtora para começar a obra. “Dê seu jeito e saia”, determinei.
Em dois meses, Raulzinho me entrega a chave de um prédio moderno que muitos botaram o “olhão”. Meu corpo foi “outdoor” da BIG BEN até 2018, quando o grupo foi vendido.
Olhando pontos para se estabelecer com uma agência da loteria esportiva, empresário me consultou sobre a venda do prédio. “Não é meu. É da minha filha Mikaela e da mãe, de quem me separei, posto que acabou o amor, mas não acabou o respeito e o reconhecimento por dias felizes. Não é juiz que vai determinar o que devo fazer do meu patrimônio. Doei. Sou desapegado, inclusive ao amor. Por alto, a 50m da Almirante Barroso, penso que o prédio vale uma boa “baba” pois é frontal ao portão principal de faculdade de medicina.
Hoje, o grupo TUDO se faz presente nos meus “condomínios” digitais. É a terceira geração dos Aguileras. Bons parceiros! Portanto, já se vão 40 anos, e lembro do papo que me disse o patriarca: “Criei meus filhos na arte de vender e eles devem amar a letra R”. São “Midas”. Sabem o valor da divisão do pão e o conhecimento da parábola dos trabalhadores da vinha.
18 de novembro, aniversário de Raulzinho Aguilera, minha gratidão por valorizar meu trabalho e, por algumas vezes, destampei sua panela, em sua casa, no Jurunas, e na BIG BEN almocei comida de ótima qualidade como se fosse seu funcionário.
Neste 18 de novembro, data do seu aniversário, Raul, sou extremamente grato aos Aguileras (1ª, 2ª e 3ª gerações) por reconhecerem meu trabalho e está sob a proteção da solidariedade e da fraternidade que emana do patriarca.
Em mim não há constrangimento, porque nunca vendi minha consciência, mas o meu labor para um parceiro que sabe meu valor e que não atrasa a “baba”, que me ajuda a pagar minha vaidade: comer bem, dormir tranquilo e amar sem me “dopar” com “jumentinho”.
É o que há!
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