METANOIA EM MIM

Em Macapá, final da década de 60 à de 70, “eu era um garoto que amava os Beatles e os Roling Stones”.
Queria usar cabelo grande e “calça no rendengue, boca de sino”, meu pai não permitia. Educação espartana braba.
Presença marcante no Cine Paroquial, aos domingos, com revistas em quadrinhos debaixo do sovoca, e, antes da sessão de “Uma Pistola para Ringo” (Giuliano Gemma – clássico do Bang Bang) praticava a troca entre parceiros que tinham o mesmo gosto.
Em todas as casas havia um aparelho de rádio. O de casa, um inglês Mullard de 6 faixas. Era o “babá” como é hoje a TV ou às redes sociais.
Bisbilhotando as faixas do rádio, ouvia os locutores falarem dos revolucionários Fidel Castro e Che Guevara, que haviam chegado ao poder em Cuba, através do que se denominou “Revolução Cubana”.
“Até a vitória sempre”, frase de Che, vivia nas bocas dos professores e da juventude macapaense.
Então, passei a ser fã dos revolucionários cubanos e, por conseguinte, era “comunista” sem imaginar que os “heróis cubanos” eram monstros travestidos na “ordem democrática” propalada nas escolas.
Década de 70, entro no rádio e, paralelo ao oficio de repórter esportivo, trabalhava na Câmara de Vereadores de Macapá, meio recheado de esquerdistas e direitistas, mas sem manifestar minha opinião. Nem pensar...
Final de 1978 chega a extensão da UFPA, no Território Federal do Amapá, instalando-se em uma das salas do colégio “Barão do Rio Branco”, no centro da capital amapaense.
Incentivado por pessoas que me achavam inteligente, e, levado pelo “jogo do contente” da personagem “Polyana”, matriculo-me no vestibular. Em um dia de janeiro de 1979, minha mãe, esposa e irmãos ouviram, através da PRC-5, meu nome como um dos aprovados no curso de letras da UFPA. Eu e o meu vizinho “Maneco”, da Vila dos Operários, fomos os únicos macapaenses aprovados.
Vim em Belém, fiz minha matricula e voltei a Macapá para os acertos com dona Fátima, mãe dos meus dois filhos: Elyman e Elymar, que hoje moram no Rio de Janeiro. Era funcionária do governo federal, exercendo atividades no setor de Merenda Escolar da Secretaria de Educação.
Minha mãe me incentivou: “Vá meu filho, que mando 200 cruzeiros para você, enquanto você arruma trabalho”.
5 de maio de 1979 deixo Macapá pensando em Belquior: “Eu tenho medo, e medo está por fora do meu coração”. Chego em Belém, morando numa “república”, em Nazaré, passei a frequentar o Campus Básico da UFPA e buscando emprego nas rádios.
Enquanto não encontrava o que queria, lavei carro na Praça da República.
Tarde e parte da noite, vivi uma realidade impensada por um jovem “inocente puro e besta”, “vindo do interior”, no setor básico da Universidade Federal do Pará. Professores e a maioria dos alunos inconformados com o sistema vigente no país. Pastoral da Terra, agentes federais prendendo “revolucionários” e numa certa tarde de 1980 um agente, dentro de uma das salas do bloco C assassina um aluno. Caos total no “Vadião”, onde revolucionários e traficantes faziam parada. Viciei-me em maconha, incentivado por uma gostosinha.
Li Paulo Freire (“Pedagogia do Oprimido”); Olvavo de Carvalho (O Imbecil Coletivo), Guimarães Rosa, Dostoievski, Tolstói, a ouvir poeta Rui Barata, arquiteto Paulo Chaves, meus professores.
Nada do que via, convencia-me. Tinha algo errado, que eu não sabia o que era, mas aquela “revolução” não entrava em mim.
Certo dia, um colega me convidou para ir à JINKINGS, uma livraria, na Mundurucus, em Batista Campos. Encantei-me com as obras. Sem dinheiro para comprar, o colega foi meu fiador... Parte do que tenho na minha estante, adquiri na livraria do velho comunista Raimundo Jinkings.
Certo tarde, sentindo o cheiro das obras, deparei-me com uma encadernação da Revista Realidade, editada pela Abril de 1966 a 1976.
Tive conhecimento dos “revolucionários” brasileiros, sob a orientação dos “heróis” Cubanos desejavam iniciar, em Xambioá – atual Tocantins - um movimento guerrilheiro (patrocinado pelo PC do B (Partido Comunista Brasileiro) a fim de instalar uma revolução socialista, a mesma que houve em Cuba, e, se vitoriosa, o Brasil poderia se tornar um “satélite” da poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviética – URSS.
Inteligentemente, os “Boinas Verdes” esmagaram o movimento. José Dirceu, Dilma Rousseff e José Genuíno, ditos revolucionários, fugiram da empreitada, e hoje estão vivinhos falando em democracia, mas com as “caras de éguas” fazendo cabeças de políticos imbecis, que nunca meteram um prego numa barra de sabão – iguais a sindicalistas e camelôs da fé – que querem ser o eterno dono do trono. São ladinos!
Qual futuro de Cuba? Fidel Castro tornou-se ditador sanguinário. Monstro. E eu que fui fã dele...
Fórum de São Paulo, em 1990, qual finalidade? Quem criou e patrocinou os líderes do Brasil, Cuba, Venezuela e Nicarágua? Pira paz, não quero mais.
Dez anos dentro da UFPA (de 80 a 90) e saí com três canudos: Letras, jornalismo e pós graduado em Gêneros textuais.
Por mais de 25 anos apliquei conhecimentos em escolas públicas (uma delas o conceituado “Rego Barros”); nunca vendi apostila para alunos, e não “vigiava” alunos: aplicava a prova e saia de sala, mandando que eles colassem a vontade. Minhas provas incentivavam meus alunos a pensarem e nunca decorarem conteúdo. É o mal da educação brasileira tornar o aluno “deposito” de textos decorativos.
Aprendi com meu pai: ir à urna. Voto. Não discuto e nem defendo político (principalmente ladino, bandido, ladrão, corrupto), mesmo porque nunca dependi deles para viver.
Aos 76, não quero ter razão, quero ser feliz, continuando produzindo para viver e consumindo para não morrer e escrevendo pensando em imbecil, porque, quem sabe, não sou um deles.
O ódio é o grande mal deste país. Pessoas se matam defendendo políticos que são desprovidos de valores civilizatórios – sociais, culturais, éticos e honestidade.
Chega! Graças a Deus – o meu que é rico, poderoso e festeiro –, votarei pensando em mudar e no futuro do filho que ainda depende dos meus proventos.
Neste país, “que um dia disseram que era nosso” é “muito mais difícil ser honrado que ser esperto”.
É o que há!




